quarta-feira, setembro 12, 2007

Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...

Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chiou do céu
E enegreceu os caminhos...

Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz não,
Não sei porquê - eu não tinha medo -
Quis-me rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...

Ah, é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentir-me-ia ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentir-me-ia familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, ouvindo a chaleira,
E tendo parentes mais velhos que eu
E fazendo isso como se florisse assim.
Sentir-me-ia alguém que possa acreditar em Santa Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!

(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)

(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara,?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
Alumia e que a trovoada
É um barulho repentino
Que principia com luz.
Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde de existir
Das árvores e das plantas!)

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega...


Alberto Caeiro

domingo, setembro 09, 2007



Da rosa silvestre,
pétalas caem aos poucos -
ao som da cascata?

Matsuo Bashô (1644-1694)

Imagens orientais - versão portuguesa de Luísa Freire





Kyoto Gardens, Holland Park, Londres

sábado, setembro 08, 2007

HAIRSPRAY

muito divertido! com uma mensagem linda ainda hoje! porque há ritmos que não nos podem mesmo fazer parar. nunca. que a diferença não nos faça parar. e que o ritmo nos faça prosseguir sempre!


Nikki Blonsky

linda!!!!!!!!!!!!!!








(e os meninos que me acompanharam são dos mais lindos do mundo!)

quinta-feira, setembro 06, 2007

...
Acredita no que desejas, as palavras
decalcam do teu coração
a palpitação que, adolescente, sentes às 3
da tarde no banco de cimento,
e o verão e as árvores e as aves
levam-te ao enfeite ideológico
da paixão.
...
Fernando Luís Sampaio, Falsa Partida
o banco não é de cimento, mas é de verão. e o recado urgente na noite (e nos dias que nos fazem)

terça-feira, setembro 04, 2007

toda a gente precisa de um sítio para pensar





segunda-feira, setembro 03, 2007

Um ano diferente

Começa hoje um ano lectivo diferente.
Perco no quotidiano da casa em que trabalho uma das coisas mais importantes que aqui ganhei – uma das pessoas mais importantes da minha vida. Os nossos caminhos cruzaram-se nesta escola e foram feitos de muitas horas de trabalho. A nossa cumplicidade no trabalho, o nosso empenho, algumas vezes a nossa discordância, muitas vezes a nossa luta, acabou, não poderia ser doutra forma, por nos aproximar para lá do portão desta escola.

Apoio-te incondicionalmente na decisão que tomaste, Vera. Acho que deves fazê-lo. Mas quero que saibas que a minha vida nesta escola será para sempre diferente. Será para sempre menos cheia e menos feliz! Vou ter muitas saudades de trabalhar contigo, de discordar de ti, de me enervar contigo, de lutar contra as tuas momentâneas intransigências. Vou ter muitas saudades dos teus matinais beijos na testa e de me apertares as bochechas até à vermelhidão! Vou ter saudades das tuas cuscuvilhices e das tuas perguntas difíceis!
Temos uma enorme alegria em comum, a Mimicas, somos comadres!:)
Seremos para sempre amigas, tenho a certeza! Mas a minha vida nesta escola, este ano e para sempre, será muito diferente!

Obrigada por tudo o que fizeste pelos nossos alunos!
E as maiores felicidades do mundo no novo emprego!
A partir de hoje continuaremos juntas. Para lá do portão desta escola.

quinta-feira, agosto 30, 2007

ah, e já me esquecia...
obrigada a todos os que não se esqueceram do dia 10.
continuo a gostar muito de fazer anos!

quarta-feira, agosto 29, 2007

porque ainda estou de férias e elas são para aproveitar até ao último dia, resolvi regressar com a ideia de passeio. mas já que aqui vim, algumas coisas a assinalar:
  • livros de verão (só porque os li neste mês que para mim, é O mês de verão)

de Cuca Canals: 500 mil histórias de amor (nada como os bons velhos tempos de Berta, A grande ou Chora Alegria, os meus livros preferidos dela)

de Haruki Murakami: Sputnik, meu amor (um livro estranho, dizia-me a Cat, que mo deu; estranha-se, sim, mas entranha-se, do princípio ao fim. recomendo vivamente)
de Dorothy Parker: Contos (finalmente a ler esta menina. muito bom)
  • filmes de verão

David Silverman: The Simpsons: The Movie (mas quem é que não delira com a cena do "spider-pig"?)

Gregg Araki: Mysterious Skin

Quentin Tarantino: À Prova de Morte

Bruce A. Evans: A Face Oculta de Mr. Brooks

tristeza de verão

Eduardo Prado Coelho

(reli hoje quase todas as crónicas desde 1998 ainda online no site do Público)

vamos passear!
vamos?

sexta-feira, agosto 24, 2007

tempo de férias!

e o melhor das férias é...
chegar e prolongar as férias!

domingo, agosto 12, 2007


vim!
agora so volto dia 20.
(nao me esqueci dos acentos, este teclado nao me deixa po-los)
boas ferias!!!!!

terça-feira, agosto 07, 2007


a última ceia ou sobre "O Cerejal" de Anton Tchékhov

com ana ribeiro, mónica calle, mónica garnel, rita só e rute cardoso



fui ver ontem. quer dizer, esta peça não se vê, vive-se.

vou tentar explicar. o que a Mónica Calle propunha era "um jantar para 25 pessoas, 4 semanas, 4 ementas, 4 apresentações diferentes". participámos na segunda. e esta foi, de facto, uma experiência diferente. estamos à mesa, com as actrizes, que dizem (bem) o texto. e o resto foi acontecendo, o texto, o jantar, a partilha, o riso (com a Ivette ao meu lado quem me aguentaria calada?).

a desconstrução do texto de Tchékhov e a proposta arrojada de Monica Calle venceram e fizeram-me ganhar a noite. depois, no final, ficamos a conversar com os actores e a falar sobre o que ali se passou.

bem, primeiro estranha-se, depois entranha-se, como dizia o outro. mas vale mesmo a pena.
pela primeira vez na vida consegui abrir uma garrafa de champanhe sozinha! quase um ano e meio depois de viver sozinha atrevi-me. e consegui!!!! tinha tanto medo!...
(agora vou ter de a beber toda sozinha! para comemorar!...)

segunda-feira, agosto 06, 2007



e lá fui.

gostei especialmente de 3 coisas:

- o trabalho de Vivan Sundaram, neto de Amrita Sher-Gil que recuperou uma montagem de fotografias de Amrita, tiradas na Índia e em Paris na década de 30. encontra-se na sala Re-take. adorei e demorei-me a olhá-las.

- Aino Kannisto, da Finlândia (jovem, nasceu em 1974) - também fotografia. gostei mesmo muito. talvez a minha grande descoberta da visita, cujo trabalho andei já a espiolhar para conhecer melhor.

- elejo 2 quadros:

Portrait of Jacqueline, 1984, de Julian Schnabel

The Barn, 1994, de Paula Rego

fim de tarde.
sexta-feira.
praia preferida.
óptima companhia.
Meco. Praia das Bicas.



e a noite a chegar...
o mesmo sítio.
a mesma paz.
uma fogueira acesa.
maravilhosa companhia.
para sempre.
Meco. é mesmo um dos meus "sítios". vá onde for, faça o que fizer, voltarei sempre cá.

quarta-feira, agosto 01, 2007

inquietam-me as cores fortes no céu
as nuvens inseguras
as que se deixam vencer
pelo sol a arder.


inquieta-me a estrada
vence-me a ponte.

regresso.

admirável estrada que me leva
a ti.
Nunca te direi a verdade toda.
Mas nos olhos levo-te as cores fortes do céu deste dia.

Para todos os dias.



terça-feira, julho 31, 2007

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

José Luís Peixoto
Michelangelo Antonioni
(1912 - 2007)


acho que nem consigo dizer grande coisa.
este é também um gigante na minha vida.

(foi com a Amélia Pais que vi este filme pela primeira vez. foi por ela que soube do Bergman ontem. e do Antonioni hoje. e sim, foi ela quem me ajudou a apaixonar pelo cinema. para sempre.)

segunda-feira, julho 30, 2007

Ingmar Bergman
(1918-2007)










passei o dia sem net - (como isso agora nos desliga do mundo!). cheguei a casa e soube. Ingmar Bergman morreu hoje. não posso deixar de sentir este vazio quando um gigante morre. uma amiga (curiosamente alguém que na adolescência me ajudou a apaixonar pelo cinema) dizia num mail que ele a ajudou a ver cinema. pois é. para sempre.

(não poderia escolher nenhuma imagem minha para este post - Persona, 1966)
de regresso a casa...
cheira a calor em Lisboa...