sexta-feira, julho 04, 2008

e, sendo raro, hoje só apetece... dance with me

(nouvelle vague, dance with me, bande a part)

quarta-feira, julho 02, 2008

Nuvens
Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio via-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.
Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.
Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.
António Ramos Rosa
Volante Verde - 1986
in Antologia Poética

terça-feira, julho 01, 2008

«Há exercícios para treinar a verdade como, por exemplo, ter medo. Ou então ter fome. Depois restam exercícios para treinar a mentira: todos os grupos são isto, e todos os negócios. Estar apaixonado é a outra forma de exercitar a verdade.»

Gonçalo M. Tavares, Um Homem: Klaus Klump, romance, Caminho, 2003

domingo, junho 29, 2008

Caeiro

Gosto do céu porque não creio que elle seja infinito.
Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?
Não creio no infinito, não creio na eternidade.
Creio que o espaço começa numa parte e numa parte acaba
E que agora e antes d’isso há absolutamente nada.
Creio que o tempo tem um princípio e tem um fim,
E que antes e depois d’isso não havia tempo.
Porque ha de ser isto falso? Falso é fallar de infinitos
Como se soubessemos o que são de os podermos entender.
Não: tudo é uma quantidade de cousas.
Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas.

Fernando Pessoa
Poema inédito, sem data, transcrito por Jerónimo Pizarrro, em 2008

sábado, junho 28, 2008

pride
28 de junho
(be happy!)

sexta-feira, junho 13, 2008



Fernando António Nogueira Pessoa

13 de Junho de 1888

A quadra é o vaso de flores que o povo põe à janela da sua alma. Da órbita triste do vaso escuro a graça exilada das flores atreve o seu olhar de alegria.

portanto, porque é dia de quadras nos manjericos e cantigas na avenida...

Cantigas de portugueses

São como barcos no mar -

Vão de uma alma para outra

Com riscos de naufragar.



terça-feira, junho 10, 2008

Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busque riquezas, honras a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.

Luís de Camões

Hoje, 10 de Junho, é Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas
e basta ir aqui para perceber quão grave é dizer certas coisas...

segunda-feira, junho 09, 2008


O céu

Assoam-se-me à alma, quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.

Luís Miguel Nava
Como alguém disse
Poesia Completa
1979-1994

domingo, junho 08, 2008

desde o último post eu não fui:
ao rock in rio
à praia
beber cervejas (nem kyr)
ao cinema
e não fiz muitas outras coisas que gostaria de ter feito.
trabalhei muitas horas (ganhámos uma importante competição nacional :)). tive algumas conversas difíceis. andei muito aflita de um dedo. continuei a trabalhar muito.

como apesar de tudo estou bem viva, viva ao Pepe, que marcou o primeiro golo:


segunda-feira, maio 26, 2008

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos com a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e de aspirina.


Álvaro de Campos (14-3-31)

domingo, maio 25, 2008

conselho do dia: live a love life.
colhendo o dia. aos pedaços. nas manhãs tardias. na cidade. a vida vai renascendo onde e quando menos se espera...

sexta-feira, maio 23, 2008

Lisboa não é a cidade perfeita

Ainda bem
que o tempo passou
e o amor que acabou
não saiu...
Ainda bem
que há um fado qualquer
que diz tudo o que vida
não diz...
Ainda bem
que Lisboa não é
a cidade perfeita
para nós...
Ainda bem
que há um beco qualquer
que dá eco
a quem nunca tem voz...
Ainda agora vi a louca
sozinha a cantar
do alto daquela janela...
Há noites em que a saudade
me deixa a pensar
um dia juntar-me a ela
um dia cantar como ela...
Ainda bem
que eu nunca fui capaz
de encontrar a viela
a seguir...
Ainda bem
que o Tejo é lilás
e os peixes não páram
de rir...
Ainda bem
que o teu corpo não quer
embarcar na tormenta
do meu...
Ainda bem...
Se o destino quiser
esta trágica história
sou eu...

Ainda agora vi a louca...

Pedro da Silva Martins.

este menino é um dos que criaram e cantam como Deolinda. o disco chama-se "Canção ao lado". parece que querem cantar a tristeza a rir. e conseguem. são lindos. o disco também. a Ana Bacalhau dá a voz (e o corpo e a gargalhada...) a esta Deolinda. adorei vê-los ao vivo. e hoje ouvi várias vezes esta canção. (obrigada Cat. - é por estas e por outras...)

quarta-feira, maio 07, 2008

[…]
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte
Os beijos merecidos da Verdade.

Horizonte, Mensagem, Fernando Pessoa

Ontem uma aluna lia este poema em voz alta numa aula. Eu lia outra coisa e pareceu-me diferente o último verso. Parte do diálogo que se seguiu:

Prof.: A. o que disse no último verso?
Aluna: disse “os beijinhos merecidos da verdade”, professora!
Prof.: beijinhos??? Mas não é isso que lá está!
Aluna: ó professora, ninguém diz beijos…. Nem reparei, mas não tem mal pois não? Toda a gente diz beijinhos!

(esta aula aconteceu ontem, com uma turma do 12º ano;
apeteceu-me partilhar;
eu até digo sempre “beijos” – mas deve ser a minha antiga resistência aos diminutivos que me faz ser “diferente”;
quanto ao “resto”, não faço considerações :)

domingo, abril 27, 2008

ao ouvido hoje ficou... beira-mar

Dentro do mar tem rio...
Dentro de mim tem o quê?
Vento, raio, trovão
As águas do meu querer

Dentro do mar tem rio...
Lágrima, chuva, aguaceiro
Dentro do rio tem um terreiro
Dentro do terreiro tem o quê?

Dentro do raio trovão
E o raio logo se vê
Depois da dor se acende
Tua ausência na canção

Deságua em mim a paixão
No coração de um berreiro
Dentro de você o quê?
Chamas de amor em vão

Um mar de sim e de não
Dentro do mar tem rio
É calmaria e trovão
Dentro de mim tem o quê?

Dentro da dor a canção
Dentro do guerreiro flor
Dama de espada na mão
Dentro de mim tem você

Beira-marBeira-mar
Ê ê beiramar
Cheguei agora
Ê ê beira-mar
Beira-mar beira de rio
Ê ê beira-mar

Maria Bethânia, Mar de Sophia



o fim-de-semana teve manifesto, pais, esplanada, sobrinhos, gargalhadas, jornais, cinema, viagens, "lapadas", outros nomes de código e...
e cheiro a sol na pele...

sexta-feira, abril 25, 2008


25 de Abril
1974-2008

(celebro a data com um dos seus poetas, num dos meus poemas preferidos. cá no cimo duma noite em que espero a manhã clara e o coração limpo)

Canto Moço

Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara
Lá do cimo duma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo duma montanha
Onde o vento cortou amarras
Largaremos pela noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.

Zeca Afonso

terça-feira, abril 22, 2008

porque ontem estive no Coliseu a ver, ouvir e a gostar do Nick Cave hoje o poema é dele:

I don't believe in an interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms
And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms
...
Into my arms, O Lord
Into my arms
And I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candlew burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore
Into my arms

quinta-feira, abril 10, 2008

os dias são de vento. e pouco tempo.
(muitas palavras têm cores na minha cabeça quando as penso. o vento é cinzento.)

se o vento é a ignição

se o vento é a ignição
das árvores venha o
temporal
, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina



valter hugo mãe
para vos engordar a alma
útero
edições quasi
2003

sexta-feira, abril 04, 2008

Segredo

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.

Fernando Pinto do Amaral
Às Cegas

terça-feira, abril 01, 2008

das férias trouxe o mar e a vertigem do areal...

Não te surpreendas amigo se nada mais desejo.
Preciso do tempo todo para seguir o sol.

(Angelus Silesius)

e matei saudades...