sexta-feira, julho 18, 2008

A janela

Uma das janelas de Calvino, a com melhor vista para a rua, era tapada por duas cortinas que, no meio, quando se juntavam, podiam ser abotoadas. Uma das cortinas, a do lado direito, tinha botões e a outra, as respectivas casas.
Calvino, para espreitar por essa janela, tinha primeiro de desabotoar os sete botões, um a um. Depois sim, afastava com as mãos as cortinas e podia olhar, observar o mundo. No fim, depois de ver, puxava as cortinas para a frente da janela, e fechava cada um dos botões. Era uma janela de abotoar.
Quando de manhã abria a janela, desabotoando, com lentidão, os botões, sentia nos gestos a intensidade erótica de quem despe, com delicadeza, mas também com ansiedade, a camisa da amada.
Olhava depois da janela de um outra forma. Como se o mundo não fosse uma coisa disponível a qualquer momento, mas sim algo que exigia dele, e dos seus dedos, um conjunto de gestos minuciosos.
Daquela janela o mundo não era igual.

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Calvino

quinta-feira, julho 17, 2008

"Dos filósofos e dos poetas sabe-se pouco; no entanto, uma certeza: não são como os outros; não mudam"

Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas

terça-feira, julho 15, 2008

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Sophia Andresen

quarta-feira, julho 09, 2008

presente

para a sara, que faz hoje anos e é uma menina linda:
esta foto de um circo longínquo....
e...

Eu quero simplesmente
Te dar um presente
A rosa dos tempos desabrocha, desabrocha
Desabrocha novamente
Eu quero simplesmente
A vida semente
A mente que vibra
Vibra as fibras da cidade
Que vibra novamente
Eu quero simplesmente
Você nesse instante
Amante da vida da vida amante
E o gozo do mundo, gozo sem fundo
Gozamos durante


Zé Miguel Wisnik
(cantado por Zélia Duncan, no "eu me transformo em outras")

segunda-feira, julho 07, 2008

le cirque bleu
1950
Marc Chagall
7 de Julho 1887 - 28 de Março de 1985
apetece voaaaaaaaaaaaaaar............

domingo, julho 06, 2008

"Lisboa e Tejo e tudo..."
começou o meu Verão :)

sexta-feira, julho 04, 2008

e, sendo raro, hoje só apetece... dance with me

(nouvelle vague, dance with me, bande a part)

quarta-feira, julho 02, 2008

Nuvens
Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio via-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.
Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.
Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.
António Ramos Rosa
Volante Verde - 1986
in Antologia Poética

terça-feira, julho 01, 2008

«Há exercícios para treinar a verdade como, por exemplo, ter medo. Ou então ter fome. Depois restam exercícios para treinar a mentira: todos os grupos são isto, e todos os negócios. Estar apaixonado é a outra forma de exercitar a verdade.»

Gonçalo M. Tavares, Um Homem: Klaus Klump, romance, Caminho, 2003

domingo, junho 29, 2008

Caeiro

Gosto do céu porque não creio que elle seja infinito.
Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?
Não creio no infinito, não creio na eternidade.
Creio que o espaço começa numa parte e numa parte acaba
E que agora e antes d’isso há absolutamente nada.
Creio que o tempo tem um princípio e tem um fim,
E que antes e depois d’isso não havia tempo.
Porque ha de ser isto falso? Falso é fallar de infinitos
Como se soubessemos o que são de os podermos entender.
Não: tudo é uma quantidade de cousas.
Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas.

Fernando Pessoa
Poema inédito, sem data, transcrito por Jerónimo Pizarrro, em 2008

sábado, junho 28, 2008

pride
28 de junho
(be happy!)

sexta-feira, junho 13, 2008



Fernando António Nogueira Pessoa

13 de Junho de 1888

A quadra é o vaso de flores que o povo põe à janela da sua alma. Da órbita triste do vaso escuro a graça exilada das flores atreve o seu olhar de alegria.

portanto, porque é dia de quadras nos manjericos e cantigas na avenida...

Cantigas de portugueses

São como barcos no mar -

Vão de uma alma para outra

Com riscos de naufragar.



terça-feira, junho 10, 2008

Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busque riquezas, honras a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.

Luís de Camões

Hoje, 10 de Junho, é Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas
e basta ir aqui para perceber quão grave é dizer certas coisas...

segunda-feira, junho 09, 2008


O céu

Assoam-se-me à alma, quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.

Luís Miguel Nava
Como alguém disse
Poesia Completa
1979-1994

domingo, junho 08, 2008

desde o último post eu não fui:
ao rock in rio
à praia
beber cervejas (nem kyr)
ao cinema
e não fiz muitas outras coisas que gostaria de ter feito.
trabalhei muitas horas (ganhámos uma importante competição nacional :)). tive algumas conversas difíceis. andei muito aflita de um dedo. continuei a trabalhar muito.

como apesar de tudo estou bem viva, viva ao Pepe, que marcou o primeiro golo:


segunda-feira, maio 26, 2008

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos com a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e de aspirina.


Álvaro de Campos (14-3-31)

domingo, maio 25, 2008

conselho do dia: live a love life.
colhendo o dia. aos pedaços. nas manhãs tardias. na cidade. a vida vai renascendo onde e quando menos se espera...

sexta-feira, maio 23, 2008

Lisboa não é a cidade perfeita

Ainda bem
que o tempo passou
e o amor que acabou
não saiu...
Ainda bem
que há um fado qualquer
que diz tudo o que vida
não diz...
Ainda bem
que Lisboa não é
a cidade perfeita
para nós...
Ainda bem
que há um beco qualquer
que dá eco
a quem nunca tem voz...
Ainda agora vi a louca
sozinha a cantar
do alto daquela janela...
Há noites em que a saudade
me deixa a pensar
um dia juntar-me a ela
um dia cantar como ela...
Ainda bem
que eu nunca fui capaz
de encontrar a viela
a seguir...
Ainda bem
que o Tejo é lilás
e os peixes não páram
de rir...
Ainda bem
que o teu corpo não quer
embarcar na tormenta
do meu...
Ainda bem...
Se o destino quiser
esta trágica história
sou eu...

Ainda agora vi a louca...

Pedro da Silva Martins.

este menino é um dos que criaram e cantam como Deolinda. o disco chama-se "Canção ao lado". parece que querem cantar a tristeza a rir. e conseguem. são lindos. o disco também. a Ana Bacalhau dá a voz (e o corpo e a gargalhada...) a esta Deolinda. adorei vê-los ao vivo. e hoje ouvi várias vezes esta canção. (obrigada Cat. - é por estas e por outras...)

quarta-feira, maio 07, 2008

[…]
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte
Os beijos merecidos da Verdade.

Horizonte, Mensagem, Fernando Pessoa

Ontem uma aluna lia este poema em voz alta numa aula. Eu lia outra coisa e pareceu-me diferente o último verso. Parte do diálogo que se seguiu:

Prof.: A. o que disse no último verso?
Aluna: disse “os beijinhos merecidos da verdade”, professora!
Prof.: beijinhos??? Mas não é isso que lá está!
Aluna: ó professora, ninguém diz beijos…. Nem reparei, mas não tem mal pois não? Toda a gente diz beijinhos!

(esta aula aconteceu ontem, com uma turma do 12º ano;
apeteceu-me partilhar;
eu até digo sempre “beijos” – mas deve ser a minha antiga resistência aos diminutivos que me faz ser “diferente”;
quanto ao “resto”, não faço considerações :)

domingo, abril 27, 2008

ao ouvido hoje ficou... beira-mar

Dentro do mar tem rio...
Dentro de mim tem o quê?
Vento, raio, trovão
As águas do meu querer

Dentro do mar tem rio...
Lágrima, chuva, aguaceiro
Dentro do rio tem um terreiro
Dentro do terreiro tem o quê?

Dentro do raio trovão
E o raio logo se vê
Depois da dor se acende
Tua ausência na canção

Deságua em mim a paixão
No coração de um berreiro
Dentro de você o quê?
Chamas de amor em vão

Um mar de sim e de não
Dentro do mar tem rio
É calmaria e trovão
Dentro de mim tem o quê?

Dentro da dor a canção
Dentro do guerreiro flor
Dama de espada na mão
Dentro de mim tem você

Beira-marBeira-mar
Ê ê beiramar
Cheguei agora
Ê ê beira-mar
Beira-mar beira de rio
Ê ê beira-mar

Maria Bethânia, Mar de Sophia