quinta-feira, novembro 11, 2010

Adeus Senhor do Adeus

disse-lhe muitas vezes adeus. cruzei-me muitas vezes com ele na minha rua que era nossa e passou a fazer parte. da minha vida como da cidade.

http://www.youtube.com/watch?v=PwQ28vw3M7s

terça-feira, novembro 09, 2010

ARRE, que tanto é muito pouco!

Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.


Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:


ARRRRRE!

Álvaro de Campos

segunda-feira, novembro 08, 2010

Nuvens

Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio via-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.

Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela

as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.


Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.

António Ramos Rosa











sexta-feira, novembro 05, 2010


Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

Álvaro de Campos. Insónia.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Poesia é a tentativa de representar ou de restituir por meio da linguagem articulada aquelas coisas ou aquela coisa que os gestos, as lágrimas, as carícias, os beijos, os suspiros procuram obscuramente exprimir.


Paul Valery

quarta-feira, novembro 03, 2010









queria falar do mar
gostava de ter dito algo como isto:
- foi o mar
que me fez começar a pensar no amor,
mais do que noutra coisa;
quero dizer,
num amor por que valha a pena morrer,
num amor que consuma uma pessoa.

yukio mishima




"A poesia não fala de tudo. Existe uma parte da vida sobre a qual a poesia não fala, mas eu também sou essas outras coisas."


Ferreira Gullar

terça-feira, novembro 02, 2010

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.


Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.


E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.


- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder

segunda-feira, novembro 01, 2010

leitura do fim-de-semana

os corações também se gastam
Pedro Paixão
(para matar saudades de textos curtos; para matar saudades de ler um livro de uma assentada)

Pousa um momento,
Um só momento em mim,
Não só o olhar, também o pensamento.
Que a vida tenha fim
Nesse momento!

No olhar a alma também
Olhando-me, e eu a ver
Tudo quanto de ti teu olhar tem.
A ver até esquecer
Que tu és tu também.

Só tua alma sem tu
Só o teu pensamento
E eu onde, alma sem eu. Tudo o que sou
Ficou com o momento
E o momento parou.

Fernando Pessoa
este blogue faz hoje 5 anos.

fui reler os primeiros posts e sendo eu a mesma, a minha vida é já tão outra que tudo parece muito mais distante do que 5 anos. os sentidos para aqui chegar, como lhes chamei, são os mesmos sentidos, na essência (embora não exactamente na forma) com que o fui mantendo ao longo destes anos, embora o tivesse abandonado algumas vezes. o tempo que lhe dedicava foi escasseando e outras ferramentas (como o FB) foram ocupando esse tempo. mas ele aqui está, como forma de escrever o mundo ainda. como forma de ir dizendo o mundo, dentro e fora de mim, embora só às vezes. e quase sempre com as palavras dos outros.

domingo, outubro 31, 2010

Que a cobra fique à espera sob
as suas ervas daninhas
e que a escrita se faça
de palavras, lentas e prontas, rápidas
no ataque, quietas na tocaia,
sem jamais dormir.

- pela metáfora reconciliar
as pessoas e as pedras.
Compor (ideias
só nas coisas) Inventar!
Saxífraga é a minha flor que fende
as rochas.

William Carlos Williams

sábado, outubro 30, 2010

Federico Garcia Lorca

quinta-feira, outubro 28, 2010


era o céu
era o mar
eram as nuvens


éramos. seremos.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Procura a maravilha.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.


Eugénio de Andrade

domingo, outubro 24, 2010

se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia
Herberto Helder

sexta-feira, outubro 22, 2010

sem palavras.
(como fiquei quando voltei a tirar a máquina da mala)

segunda-feira, outubro 18, 2010

ler devagar
passear devagar
olhar o Tejo...devagar.
saudades.

domingo, outubro 10, 2010

...
a poesia nem sempre
adopta a forma
de um poema

Tadeusz Rozewicz

terça-feira, outubro 05, 2010