sábado, novembro 27, 2010

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio.

Al Berto


quarta-feira, novembro 24, 2010

Sei que me vês
Quando os teus olhos me ignoram
Quando por dentro eu sei que choram
Sabes de mim
Eu sou aquele que se esconde
Sabe de ti, sem saber onde
Vamos fazer o que ainda não foi feito
Trago-te em mim
Mesmo que chova no verão
Queres dizer sim, mas dizes não
Vamos fazer o que ainda não foi feito
E eu sou mais do que te invento
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pra contar
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais
E eu sei que dói
Sei como foi andares tão só por essa rua
As vozes que te chamam e tu na tua
Esse teu corpo é o teu porto, é o teu jeito
Vamos fazer o que ainda não foi feito
Sabes quem sou, para onde vou
A vida é curva, não uma linha
As portas que se fecham e eu na minha
A tua sombra é o lugar onde me deito
Vamos fazer o que ainda não foi feito
E eu sou mais do que te invento
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pra contar
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais
Tens uma estrada
Tenho uma mão cheia de nada
Somos um todo imperfeito
Tu és inteira e eu desfeito
Vamos fazer o que ainda não foi feito
E eu sou mais do que te invento
Tu és um mundo com mundos por dentro
E temos tanto pra contar
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais
Vem nesta noite
Fomos tão longe a vida toda
Somos um beijo que demora
Porque amanhã é sempre tarde demais
Porque amanhã é sempre tarde demais
Porque amanhã é sempre tarde demais
Porque amanhã é sempre tarde demais


Pedro Abrunhosa

terça-feira, novembro 23, 2010

deus tem que ser substituído rapidamente por poemas,
sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.


a dor de todas as ruas vazias.


sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.


a dor de todas as ruas vazias.


mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração,
ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.


a dor de todas as ruas vazias.


pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite.
basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.


é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.


a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.


os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.


o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.


a dor de todas as ruas vazias.

Al Berto

segunda-feira, novembro 22, 2010

o céu é aquela clareira

o céu é aquela clareira
onde deito os olhos com ténues
cambiantes de cor que quase
gasto nas mãos, e como. como
o céu e aguardo uma
digestão convulsa. enquanto
o aguaceiro seca na terra antes que o
possa beber e deus se
vinga de mim ditando
os versos que escondem
a água ao mundo. já as
fogueiras florindo em volta,
murchando o dia que me
persegue. uma intervenção
divina para me resistir


valter hugo mãe
estou escondido na cor amarga do fim da tarde
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.


Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, novembro 18, 2010

Ai se eu pudesse falar
Dizia coisas agora
Que me faziam chorar
O melhor é ir-me embora

Ai se eu pudesse falar
Se não fosse proibido
O que tenho de calar
O que me está no sentido

O que distingue os poetas
Os faz diferentes da gente
É dizer em duas letras
O que toda a gente sente

É esta limitação
Que Deus me deu a escrever
Que enche o meu coração
De coisas para dizer

Amália Rodrigues

domingo, novembro 14, 2010

Penso que cultivo tensões
como flores
num bosque onde
ninguém vai.

Cada ferida — perfeita —,
fecha-se numa minúscula imperceptível pétala,
causando dor.

Dor é uma flor como aquela,
como esta,
como aquela,
como esta.


Robert Creeley

sábado, novembro 13, 2010

sexta-feira, novembro 12, 2010

bem sei que me repito, mas que hei-de eu fazer?...

Tenho uma grande constipação,

E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.

O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.

Álvaro de Campos, Poemas

quinta-feira, novembro 11, 2010

Adeus Senhor do Adeus

disse-lhe muitas vezes adeus. cruzei-me muitas vezes com ele na minha rua que era nossa e passou a fazer parte. da minha vida como da cidade.

http://www.youtube.com/watch?v=PwQ28vw3M7s

terça-feira, novembro 09, 2010

ARRE, que tanto é muito pouco!

Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.


Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:


ARRRRRE!

Álvaro de Campos

segunda-feira, novembro 08, 2010

Nuvens

Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio via-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.

Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela

as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.


Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.

António Ramos Rosa











sexta-feira, novembro 05, 2010


Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

Álvaro de Campos. Insónia.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Poesia é a tentativa de representar ou de restituir por meio da linguagem articulada aquelas coisas ou aquela coisa que os gestos, as lágrimas, as carícias, os beijos, os suspiros procuram obscuramente exprimir.


Paul Valery

quarta-feira, novembro 03, 2010









queria falar do mar
gostava de ter dito algo como isto:
- foi o mar
que me fez começar a pensar no amor,
mais do que noutra coisa;
quero dizer,
num amor por que valha a pena morrer,
num amor que consuma uma pessoa.

yukio mishima




"A poesia não fala de tudo. Existe uma parte da vida sobre a qual a poesia não fala, mas eu também sou essas outras coisas."


Ferreira Gullar

terça-feira, novembro 02, 2010

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.


Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.


E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.


- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder

segunda-feira, novembro 01, 2010

leitura do fim-de-semana

os corações também se gastam
Pedro Paixão
(para matar saudades de textos curtos; para matar saudades de ler um livro de uma assentada)

Pousa um momento,
Um só momento em mim,
Não só o olhar, também o pensamento.
Que a vida tenha fim
Nesse momento!

No olhar a alma também
Olhando-me, e eu a ver
Tudo quanto de ti teu olhar tem.
A ver até esquecer
Que tu és tu também.

Só tua alma sem tu
Só o teu pensamento
E eu onde, alma sem eu. Tudo o que sou
Ficou com o momento
E o momento parou.

Fernando Pessoa
este blogue faz hoje 5 anos.

fui reler os primeiros posts e sendo eu a mesma, a minha vida é já tão outra que tudo parece muito mais distante do que 5 anos. os sentidos para aqui chegar, como lhes chamei, são os mesmos sentidos, na essência (embora não exactamente na forma) com que o fui mantendo ao longo destes anos, embora o tivesse abandonado algumas vezes. o tempo que lhe dedicava foi escasseando e outras ferramentas (como o FB) foram ocupando esse tempo. mas ele aqui está, como forma de escrever o mundo ainda. como forma de ir dizendo o mundo, dentro e fora de mim, embora só às vezes. e quase sempre com as palavras dos outros.